COMO TUDO COMEÇOU
“Acho que eu estou ficando velho”.
Pensou Aurélio, quando acordou para mais um dia de trabalho. Depois de quase 30 anos, era cada vez mais frequente a ideia da aposentadoria. Não que se sentisse indisposto. Talvez, porque a rotina já lhe torturava e o dia-a-dia do escritório parecia um filme que já havia assistido milhares de vezes.
“Tempos modernos”, balbuciou ele.
No próximo ano, completaria meio século de vida, a meia-idade ainda não lhe pesava nos ombros, mas se sentia como já tivesse mais de 60. Sempre foi assim: gostava de conversar com os mais velhos, quando ainda era um adolescente e namorou uma mulher que tinha quase o dobro da sua idade, aos 17 anos.
Para alguns, a idade era um problema, mas para o Aurélio sempre foi solução para explicar porque não se sentia parte da sua própria geração. Era isso, pensou: nasci numa geração, mas tenho o comportamento de uma anterior!
Hoje em dia, então, era cada vez mais difícil conviver com tanta falta de educação! Coisas simples, tais como esperar alguém sair do elevador, antes de querer entrar nele ou dar passagem e preferência no trânsito ou mesmo a pé, era cada vez mais raro. Fazer uma pergunta e dizer, antes, “por gentileza” ou ”por favor, ”, e depois agradecer pela informação com um “muito obrigado”..…Precisa???
Se bem que o “muito obrigado” foi substituído por um tal de “valeu”….
Ficava mesmo chateado quando jogavam papéis no chão ou cuspiam na rua. Ou quando alguém conversava alto ou atendia ao celular em tudo quanto era canto, até no Teatro!!!….pedia para morrer.
“Deviam mesmo colocar bloqueadores de sinal”, pensava ele, “assim como o fazem nos presídios”.
Todos os dias ele pegava o catamarã das Barcas Charitas, em Niterói/RJ, onde morava. Sempre tinha um “espertinho” que ficava no lado do desembarque só para passar à frente de todos que esperavam pacientemente no lado do embarque. Cada dia que passava, Aurélio descobria que aumentavam o número de “espertinhos” e só agora se dava conta que eles o chamavam de otário! Só porque respeitava filas? Pode isso?
Definitivamente, se sentia um desajustado.
Por conta de tudo isso, tentou até criar o “Movimento da Volta a Cidadania e Respeito aos Direitos Humanos”. Todavia, como diz o ditado, “A emenda saiu pior que o soneto!”
Além de otário, passou a ser taxado de “egoísta e insensível aos grandes problemas nacionais”. Isto porque, nos dias de hoje, tem muita gente “morrendo de fome ou de bala perdida“, além da corrupção, claro, que assola o país, fazendo com que a sua insatisfação pareça “coisa de gente que não tem o que fazer”.
Pensou então: “Dessa vez reconheço que todo mundo tem razão”. Por esta razão vou radicalizar e colocar o “meu problema” no “final da fila das mazelas nacionais”. Afinal de contas, gostava de respeitar filas.
A TRANSFORMAÇÃO
– Bom Dia, Amor. Hoje eu acordei diferente! Resolvi aderir à modernidade e para tanto vou começar furando a fila do Catamarã de Charitas!
– Mas, Aurélio – respondeu a sua adorada esposa Aurora.
Você não acha que isso está errado, não?
– Achar, eu até acho. Mas, já estou cansado de bancar o “certinho” e ainda levar a pecha de “otário!”. Todo mundo acredita que deve levar vantagem em tudo e eu, que penso diferente, sempre saio perdendo. Cansei!
O problema é que além de “otário”, o Aurélio era reconhecidamente um cara azarado. Nunca sequer acertou (um) 1 ponto na loteria esportiva e jamais ganhou qualquer coisa nas rifas que assinou. Era tão azarado que quando resolveram criar um prêmio para quem não acertasse nada ele perdeu o cartão!.
Aurélio estava mesmo disposto a colocar seu “Plano de Modernização” em prática.
Para chegar até a estação das barcas ele pegava um ônibus.
Finalmente era sexta-feira, “sextou”, mas o dia tinha amanhecido muito nublado e uma enorme “frente fria” havia sido anunciada justamente no seu dia de estreia no papel de “espertinho”.
O ônibus demorou mais que o normal e ainda por cima veio lotado!.
Aurélio encontrou um lugar vazio. Que sorte! Um único lugar vazio naquele ônibus abarrotado de gente, mas era reservado para idosos, gestantes e demais portadores de necessidade especiais, mas como ele agora era um “espertinho”, sentou.
No ponto seguinte, subiu uma mulher grávida. Ela parecia estar nas “últimas semanas” e o Aurélio, além de fazer “cara de paisagem”, fingiu estar dormindo.
“Todo mundo faz isso”, pensou ele. “Agora eu sou moderninho. Porque ela não pegou um táxi?
E seguiu em frente com o seu “Plano de Modernização”.
Ao chegar ao ponto de descida, “fingiu acordar” e literalmente correu para conseguir embarcar no catamarã. Faltavam menos de dez lugares na embarcação. O painel avisava!
Era estranho para ele se comportar daquele jeito, mas o nosso herói, o agora “esperto” Aurélio, não desistiu! estava se adaptando aos “Novos Tempos”.
Esperou a porta de vidro que dava passagem à plataforma de embarque se abrir e lá se foi o Aurélio furar a fila pelo lado do desembarque!
Foi quando desembarcou uma senhorinha, bem idosa, que ao passar por ele disse em alto e bom som:
– “O senhor não tem vergonha, não!!! Esse lugar de desembarque é feito para dar passagem às pessoas que desembarcam!!!”.
Aurélio ficou vermelho de vergonha, mas…… não se fez de rogado.
Além da famosa “cara de paisagem”, dessa vez, ele fez foi além e fez também uma “cara-de-pau” e nem olhou para a pobre senhora.
Pior mesmo foi o olhar de todas as demais pessoas na sua direção e, dentre elas, o Aurélio reconheceu alguém na multidão. Era justamente um dos “espertinhos” que sempre furavam a fila. Tem coisa pior?
O Aurélio ainda não sabia, mas tinha sim!
O CARMA…….
Justamente naquele dia, o Catamarã ficou totalmente à deriva, após uma gigantesca onda que lhe arrancou a porta da frente e molhou todos os que estavam nas primeiras filas.
Adivinhem onde estava sentado o Aurélio?
Como desgraça pouca é bobagem, o nosso herói não sabia nadar e entrou em pânico!
Aurélio, após algumas longas horas esperando o resgate e tendo como companhia reconfortante justamente aquela senhora grávida que ele negou o lugar no ônibus e ficou o tempo todo lhe acalmando, finalmente voltou para casa.
MORAL DA HISTÓRIA
Ao entrar em casa, Aurora já sabia que ele estava naquele Catamarã.
Em rede nacional, Aurélio apareceu ao lado da senhora grávida, que o consolava, em pânico, e sendo atendido pelos paramédicos.
Ante ao olhar compreensivo da esposa e o arrependimento que lhe veio à mente pelo dia perdido, porque além de faltar ao trabalho teve o seu famigerado “Plano de Modernização” dado errado, vindo literalmente por água abaixo, só lhe restou uma constatação:
– Querida, não tem jeito:
EU NASCI MESMO PARA SER UM “OTÁRIO”!