A verdade dita assim
parece de marfim
mil bocas ansiosas
por um verbo a expressar
A verdade escondida
parece de cetim
calada e vazia
solitária, inexpressiva; quase nua.
A verdade é relativa
aos olhos de quem a vê
parece tão sólida e segura:
que nem papel machê.
A verdade, na verdade
nunca será definida
é estar em conformidade
e em equilíbrio com a vida
É ser verbo e ação
agir de acordo com a razão
amar as coisas, a natureza
e extrair toda beleza
que existe nas pequenas coisas
vivas e inanimadas
A verdade é nada
nada é verdade
Menção honrosa no Concurso do Clube dos Empregados da Petrobras (CEPE).

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O poema “A Verdade” constrói uma reflexão filosófica sobre a natureza ilusória, subjetiva e mutável do que consideramos real ou absoluto. Ao longo dos versos, a voz lírica transita da desconfiança nas certezas materiais para uma proposta existencial de equilíbrio, culminando em um desfecho paradoxal.
1. O Jogo das Texturas e Metáforas Materiais
O poema começa explorando a aparência da verdade por meio de três contrastes sensoriais marcantes:
Marfim (“A verdade dita assim / parece de marfim”): Evoca rigidez, pureza aparente, valor e solenidade, mas também artificialidade e frieza. É a verdade formalizada, proclamada pelas “mil bocas ansiosas”.
Cetim (“A verdade escondida / parece de cetim”): Representa a discrição, o velamento, a suavidade que escorrega. É uma verdade silenciosa, íntima e “quase nua”, destituída de força declaratória.
Papel Machê (“parece tão sólida e segura: / que nem papel machê”): Uma ironia direta. O que parece firme e estruturado revela-se oco, frágil e moldável, denunciando a ilusão de solidez das convicções humanas.
2. A Virada Ética: Da Teoria à Prática
Na segunda metade, o poema abandona a busca por uma definição teórica e desloca a verdade para o campo da conduta e da sensibilidade:
Ação e Harmonia: A verdade deixa de ser um conceito estático para se tornar um modo de existência (“conformidade e em equilíbrio com a vida”, “ser verbo e ação”).
Sensibilidade ao Cotidiano: O texto propõe uma reconciliação com o mundo através do afeto (“amar as coisas, a natureza”) e da atenção ao minúsculo (“pequenas coisas / vivas e inanimadas”). A verdade passa a ser a própria capacidade de contemplar o essencial.
3. O Paradoxo Final
A verdade é nada
nada é verdade.
O encerramento utiliza um quiasmo (inversão sintática) de tom niilista e relativista. Ao anular a verdade duas vezes, o poema desconstrói tudo o que foi afirmado anteriormente, lembrando que qualquer tentativa de fixar uma verdade absoluta recai no vazio.
A força da obra reside em demonstrar que a obsessão por certezas dogmáticas é inútil: a única verdade acessível reside na experiência consciente do presente, ainda que ela mesma seja transitória e fugaz.