Ghost

Onde estava você?
Quando o setembro era negro,
Quando a bolsa caiu e veio a depressão
Quando eu caí na depressão
(roubaram minha bolsa!)

Quando veio a revolução
(não era o 1º de abril!)
Quando mataram Kennedy e o Jânio
renunciou
e o Collor impedido (e o povo fugido!)

Quando a modelo sem calcinha e o povo
descamisado
na quarta-feira de cinzas foi urvizado
Quando o Senna escapou
na curva da história, na contramão
(era 1º de maio!)

Quando veio o real e calmos na ilusão,
Quando veio a eleição e caímos na real,
Quando as greves estouraram e
nossos bolsos explodiram,
Quando a luz se apagou se o Tom se foi.

Quando foi que você descobriu
que nunca existiu?

hervalfilho

Um comentário em “Ghost

  1. O poema “GHOST” articula uma crônica lírica e ácida da história contemporânea (com ênfase no Brasil do século XX), entrelaçando marcos políticos, econômicos e tragédias coletivas à experiência íntima e ao sentimento de desamparo do sujeito lírico.
    1. O Entrelaçamento do Histórico com o Cotidiano
    A força central do poema reside no recurso estilístico de trocadilhos e duplos sentidos, que rebaixam tragédias globais/nacionais ao nível do drama pessoal:

    A “bolsa” e a “depressão”: O texto funde o Crash de 1929 (“Quando a bolsa caiu e veio a depressão”) com um assalto comum e o colapso emocional subjetivo (“Quando eu caí na depressão / roubaram minha bolsa!”).

    O “1º de abril”: Refere-se ironicamente ao Golpe Militar de 1964 (oficializado em 1º de abril, embora convencionado em 31 de março), contrastando o “dia da mentira” com a dureza do regime.

    O “real”: Joga com a criação da moeda (Plano Real) e a expressão “cair na real” (“Quando veio o real e calmos na ilusão, / Quando veio a eleição e caímos na real”).

    2. Mosaico de Fraturas da Memória Brasileira
    O poema faz desfilar uma sucessão de traumas, episódios insólitos e marcos culturais:

    Tragédias e Choques Políticos: O massacre de Munique / Setembro Negro (1972), o assassinato de John F. Kennedy (1963), a renúncia de Jânio Quadros (1961) e o impeachment de Fernando Collor (1992).

    O Carnaval e a Política: “A modelo sem calcinha” evoca o escândalo de Lilian Ramos ao lado do então presidente Itamar Franco no Carnaval de 1994, associado aos “descamisados” (como Collor chamava os pobres) e ao período de transição da URV (Unidade Real de Valor).

    Lutos Coletivos: O fatídico 1º de maio de 1994 (morte de Ayrton Senna no GP de San Marino) e a morte de Tom Jobim em dezembro do mesmo ano (“a luz se apagou se o Tom se foi”, brincando com a perda de luminosidade e a perda do “tom/música”).

    3. A Ausência e a Figura do “Fantasma” (Ghost)
    A estrutura obsessiva baseada na anáfora (“Quando…”, “Onde estava você?”) constrói uma acusação contra um interlocutor ausente. Esse “você” pode ser interpretado em três camadas:

    Um amor ou parceiro ausente: Que nunca esteve presente nos momentos de crise.

    A própria cidadania / consciência social: A alienação de quem atravessou as crises do país sem jamais participar ou se posicionar.

    A ilusão da própria identidade: O desfecho revela que a pergunta não era para um terceiro, mas um confronto existencial (“Quando foi que você descobriu / que nunca existiu?”).

    Aspectos Formais
    Ritmo Acelerado: Versos livres e curtos criam uma sensação de vertigem, simulando a velocidade caótica com que as notícias e catástrofes se sucedem.

    Tom Irônico e Desencantado: O humor cáustico serve como mecanismo de defesa diante do absurdo sociopolítico e da solidão.

    O poema conclui que, em meio a tantas crises e perdas históricas, o maior choque é a percepção da própria irrelevância e invisibilidade — o sujeito ou o interlocutor que assiste a tudo passivamente nada mais é do que um fantasma.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo